Em assembleias de acionistas e releases de imprensa, a expressão "emissões líquidas zero" apareceu mais vezes nos últimos doze meses do que em toda a década anterior — pelo menos no Brasil. Empresas de energia, mineração, alimentos, varejo e tecnologia anunciaram metas para 2030, 2040 ou 2050, muitas aderindo a iniciativas internacionais como Science Based Targets. O Pacto Climático analisou relatórios de sustentabilidade de doze companhias listadas na B3 e ouviu analistas, sindicatos e fornecedores para separar compromisso concreto de comunicação corporativa.
O padrão que emerge é misto. Há avanços reais em energia renovável contratada, eficiência em plantas industriais e substituição de frota. Há também dependência significativa de créditos de carbono, metas concentradas no escopo 1 e 2 (emissões diretas e energia comprada) e pouca transparência sobre escopo 3 — emissões da cadeia de suprimentos, que frequentemente representam a maior fatia da pegada total.
Escopo 1, 2 e o elefante escopo 3
Companhia do setor de alimentos com operações no Centro-Oeste anunciou neutralidade líquida até 2040. No relatório de 2025, 62% da redução declarada veio de energia solar em unidades próprias e troca de caldeiras. Os 38% restantes incluíram compra de créditos florestais no Pará. Escopo 3 — transporte de grãos, embalagens, uso de produtos pelo consumidor — aparece em nota de rodapé, sem meta quantitativa vinculante.
Analista de ESG ouvido em condição de anonimato afirma: "O mercado premia quem anuncia meta primeiro. A pergunta incômoda é quanto da meta depende de redução real na operação e quanto de offset comprado no último trimestre do ano."
Créditos e hierarquia de mitigação
Guias técnicos recomendam hierarquia: evitar emissões, reduzir o que restou, substituir fontes e só então compensar o residual. Na prática, a compra de crédito aparece como atalho quando investimento em processo industrial exige capex elevado ou quando meta de acionista tem prazo curto.
Empresa de varejo com lojas em todo o país declarou 120 mil toneladas compensadas em 2025, majoritariamente via projetos de restauração no bioma Mata Atlântica. Organização ambiental elogiou a publicação de certificados e preços pagos, mas criticou ausência de meta de redução de emissões logísticas — caminhões que abastecem centros de distribuição ainda rodam majoritariamente a diesel.
Meta bonita no site não esquentou o caminhão que chega às três da manhã na doca. Queremos plano de transição, não só crédito comprado.
Representante sindical do setor de transporte de cargas resume a frustração de motoristas e carregadores que veem pressão por entrega rápida incompatível com rotas otimizadas para menor consumo.
Cadeia de suprimentos e fornecedores
Multinacional de tecnologia com fábrica em Campinas exige desde 2024 que fornecedores tier 1 reportem inventário de emissões. Fornecedor de componentes metálicos em São Bernardo do Campo conta que recebeu questionário de 80 páginas e prazo de 60 dias, sem suporte técnico para pequenas empresas que não têm equipe de sustentabilidade. "Ou contratamos consultoria cara ou arriscamos perder contrato", disse o diretor administrativo, que pediu anonimato por receio de represálias comerciais.
Consultorias especializadas cresceram para preencher essa lacuna, criando mercado paralelo de conformidade ESG. Pesquisadores da FGV alertam para risco de "greenhushing" inverso: fornecedores que inflam números para não serem excluídos de licitações corporativas.
Transparência e auditoria
Entre as doze empresas analisadas, oito publicaram inventário completo verificado por terceira parte; quatro limitaram-se a declaração gerencial. Apenas cinco detalharam preço médio pago por tonelada de crédito e origem geográfica dos projetos. Camila Duarte, autora desta reportagem, considera esse dado essencial: "Sem preço e origem, leitor e investidor não conseguem avaliar se a compensação financia proteção florestal séria ou certificado genérico."
A CVM intensificou orientações sobre divulgação de riscos climáticos, mas sanções por greenwashing ainda são raras no Brasil. Advogados especializados preveem aumento de ações coletivas se metas anunciadas não forem acompanhadas de plano de transição documentado.
Trabalhadores e transição justa
Sindicatos de petroleiros, metalúrgicos e rodoviários cobram que metas corporativas incluam requalificação profissional e diálogo com trabalhadores afetados por desinvestimento em combustíveis fósseis. Empresa estatal do setor de energia anunciou programa piloto de reconversão em parceria com institutos federais; empresa privada do mesmo setor foi alvo de crítica por demissões em refinaria enquanto anunciava meta de zero líquido em comunicado à imprensa.
O que observar daqui para frente
Temporada de assembleias de acionistas em maio e junho deve trazer votações sobre relatórios de sustentabilidade e emendas de acionistas exigindo metas de escopo 3. O Pacto Climático publicará tabela comparativa atualizada quando novos relatórios forem divulgados.
Documentos, relatos de fornecedores e denúncias sobre metas climáticas corporativas podem ser enviados para [email protected].