Na região do Baixo Amazonas, a chegada de um projeto de crédito de carbono costuma ser anunciada com promessa dupla: proteger floresta em pé e gerar renda para comunidades ribeirinhas. Nos últimos dois anos, o número de iniciativas desse tipo na Amazônia Legal cresceu de forma acelerada — impulsionado por demanda de empresas que buscam compensar emissões e por marcos regulatórios em discussão no Congresso e no mercado voluntário. O Pacto Climático passou dez dias entre Santarém, Altamira e comunidades do Pará para entender quem ganha, quem decide e quais riscos permanecem fora dos folders.
Crédito de carbono florestal não é monólito. Há projetos REDD+ que evitam desmatamento em áreas sob pressão de grilagem; há restauração de pastagens degradadas que sequestram carbono ao longo de décadas; há iniciativas comunitárias menores, certificadas por padrões internacionais, que vendem toneladas para compradores na Europa e nos Estados Unidos. O que une essas experiências é a expectativa de que a floresta valha mais em pé do que convertida — e a pergunta persistente sobre quanto dessa expectativa se materializa em renda local duradoura.
Receita local e governança
Em uma associação de extrativistas a 120 quilômetros de Santarém, o repasse anual de um contrato de crédito financiou barco de vigilância, capacitação em manejo de açaí e bolsas para jovens na escola técnica. O valor não transformou a economia da região da noite para o dia, mas permitiu investimentos que o orçamento municipal raramente alcança. "Pela primeira vez, a gente sentou na mesa para discutir preço da tonelada e percentual de repasse antes de assinar", disse Raimunda, liderança comunitária que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome por receio de retaliação de madeireiros irregulares.
O contrato prevê auditoria externa anual e fundo de reserva para anos em que incêndios ou estiagens reduzam o estoque de carbono contabilizado. Especialistas ouvidos pelo Pacto Climático consideram essa cláusula de permanência um avanço em relação a acordos mais antigos, mas alertam que a fiscalização depende de recursos que nem sempre são mantidos após a primeira certificação.
Permanência, vazamento e dupla contagem
Os três termos aparecem em toda reunião técnica sobre compensação florestal. Permanência pergunta se a floresta protegida hoje continuará em pé daqui a vinte anos. Vazamento investiga se a pressão sobre a madeira ou a soja simplesmente se deslocou para a propriedade vizinha. Dupla contagem questiona se a mesma tonelada reduzida não está sendo vendida duas vezes — para o comprador de crédito e para o inventário nacional de emissões.
Pesquisador do Imazon, que preferiu não ser identificado porque participa de grupos de trabalho com o governo federal, resume: "O Brasil tem potencial enorme para crédito de alta integridade, mas precisa de cadastro público, rastreabilidade e sanção para quem infla baseline. Sem isso, o mercado premia quem promete mais, não quem entrega mais."
Floresta em pé vale ouro, mas ouro sem mapa vira convite para especulador. Queremos crédito, não promessa vazia.
A frase circulou em oficina organizada por organização de direitos humanos em Altamira, onde comunidades indígenas e ribeirinhas debateram propostas de projeto que cruzavam seus territórios. Parte dos presentes rejeitou qualquer modelo que não garantisse consulta prévia e veto coletivo; outra parte viu no crédito instrumento complementar a turismo de base comunitária e comercialização de produtos da floresta.
Regulação e mercado voluntário
No Congresso, projetos de lei sobre mercado de carbono avançam em ritmo irregular. Enquanto isso, o mercado voluntário opera com padrões privados — Verra, Gold Standard, entre outros — e compradores corporativos que precisam cumprir metas de neutralidade antes de 2030. A diversidade de regras gera confusão para comunidades que recebem propostas com linguagens e preços distintos.
O Ministério do Meio Ambiente informou que trabalha em sistema de registro nacional que deveria entrar em operação piloto ainda em 2026, integrando projetos estaduais e evitando dupla contagem. Ambientalistas pedem que o registro seja público, consultável e vinculado a dados de desmatamento em tempo quase real — exigência que encontra resistência de intermediários que tratam informação comercial como confidencial.
Quem compra e por quê
Empresas de aviação, varejo e tecnologia aparecem entre os compradores mais ativos de créditos amazônicos no mercado voluntário. Relatórios de sustentabilidade citam toneladas compensadas em operações no Brasil e no exterior. Críticos argumentam que a compra de crédito pode postergar redução direta de emissões nas operações urbanas das mesmas empresas; defensores respondem que o fluxo financeiro financia proteção imediata de áreas sob ameaça real.
Para comunidades, a equação é concreta: vigilância comunitária custa combustível, alimentação e remuneração de agentes. Crédito de carbono pode pagar essa conta quando o Estado falha. O risco é depender de preço internacional volátil e de certificadora distante que raramente visita o terreno.
Perspectivas
Projetos em tramitação no Pará e no Amazonas devem certificar novas áreas até o fim do ano. ONGs preparam guia comunitário em linguagem acessível sobre cláusulas contratuais, direitos territoriais e canais de denúncia. O Pacto Climático acompanhará a implementação do registro nacional e publicará segunda parte desta reportagem com dados de repasse financeiro auditados.
Relatos sobre projetos de carbono na Amazônia podem ser enviados para [email protected].