A Prefeitura de São Paulo apresentou em maio a revisão do Plano ClimSP, documento que orienta a redução de emissões de gases de efeito estufa no município até 2050. A meta final — carbono neutro em três décadas — não é nova, mas desta vez o plano inclui marcos intermediários para 2030 e 2040, com metas setoriais para transporte, resíduos, energia e uso do solo. Três semanas depois da divulgação, o Pacto Climático ouviu técnicos, vereadores e moradores de bairros periféricos para entender o que muda na prática.
O inventário municipal mais recente aponta que transporte responde por cerca de 42% das emissões diretas da cidade, seguido de resíduos sólidos e energia em edificações. O plano revisado propõe ampliar corredores de ônibus elétricos, acelerar a coleta seletiva e ampliar áreas verdes urbanas como sumidouros de carbono. A promessa é ambiciosa; o detalhamento orçamentário, ainda incompleto.
Metas intermediárias e inventário
Para 2030, o Plano ClimSP estabelece redução de 30% nas emissões em relação ao ano-base de 2012. Até 2040, a meta sobe para 55%. Os técnicos da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente afirmam que o inventário será atualizado anualmente e publicado em formato aberto — medida elogiada por pesquisadores da USP e da FGV que acompanham políticas urbanas de clima.
Professora Helena Morales, do Laboratório de Cidades e Mudanças Climáticas da USP, considera positivo o detalhamento setorial, mas alerta: "Meta sem verba vinculada vira carta de intenções. Precisamos ver linha no orçamento para ônibus elétrico, usina de biogás e manutenção de parques, não só meta percentual bonita em slide."
A Prefeitura responde que o plano será desdobrado em ações anuais com indicadores trimestrais e que parte do financiamento virá de fundos federais e parcerias com concessionárias de energia. Documentos obtidos via pedido de acesso à informação, porém, mostram que apenas 18% das ações previstas para 2026 têm dotação confirmada no orçamento vigente.
Transporte: elétrico na promessa, diesel na rua
O eixo transporte concentra as maiores expectativas e as maiores dúvidas. O plano prevê que 40% da frota de ônibus municipal seja zero emissão até 2035, com prioridade para linhas que atendem Zona Leste e extremo sul — regiões onde a poluição do ar historicamente supera limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde.
Motoristas e passageiros ouvidos na região de São Mateus e Sapopemba relatam ceticismo. "Ouvir falar de ônibus elétrico enquanto a frota quebra todo dia é difícil de engolir", disse Cláudia, comerciante que pega duas conduções para chegar ao centro. Representantes de cooperativas de transporte pedem garantia de infraestrutura de recarga e assistência técnica antes de qualquer prazo de substituição da frota atual.
Neutralidade de carbono no papel não limpa o ar que a gente respira hoje. Queremos prazo, mas queremos ônibus que funcione e tarifa que não expulse ninguém do transporte público.
A frase é de João Pedro, integrante de movimento de moradores de Itaquera que participou de audiência pública sobre o plano. Ele cobra integração entre meta climática e política tarifária — ponto que o documento menciona de passagem, sem proposta concreta.
Resíduos e aterros
Resíduos sólidos aparecem como segundo eixo crítico. São Paulo ainda deposita parcela significativa de lixo em aterros, com emissão de metano. O plano prevê ampliar a coleta seletiva para 60% dos domicílios até 2030 e investir em usinas de compostagem e biogás. Coletores que trabalham em cooperativas de reciclagem em Guarulhos e na zona sul capitalina questionam se a meta inclui valorização do trabalho de catadores — tema ausente na versão inicial divulgada.
Secretaria de Limpeza Urbana informou que edital de parceria com cooperativas será publicado em julho. Ambientalistas pedem que a meta de neutralidade contemple emissões evitadas pelo reúso de materiais recicláveis, não apenas a captura de metano nos aterros.
Participação e bairros periféricos
Audiências públicas realizadas em maio reuniram cerca de 400 participantes presenciais e online, com maior presença de técnicos e ONGs do que de moradores de periferia. Vereadora Ana Lúcia Martins (PSOL) apresentou requerimento pedindo novas audiências em Ermelino Matarazzo, Brasilândia e Cidade Tiradentes — bairros com menor cobertura de arborização e maior vulnerabilidade a ilhas de calor.
Estudos da própria Prefeitura indicam que temperatura superficial pode variar até seis graus entre regiões central e periféricas em dias de verão. Ampliar parques e corredores verdes faz parte do plano, mas o cronograma de implementação prioriza eixos viários de maior visibilidade, segundo mapa anexo ao documento.
Próximos passos
O Plano ClimSP revisado segue para votação em comissão especial da Câmara Municipal, com previsão de conclusão até agosto. Grupos ambientalistas preparam emendas exigindo orçamento vinculado e relatórios semestrais de execução. Empresas de energia e construção civil acompanham de perto: contratos de eficiência energética em prédios públicos e licitações de infraestrutura verde podem movimentar bilhões nos próximos anos.
Para quem mora em São Paulo, a neutralidade de carbono até 2050 depende de decisões que começam agora — no corredor de ônibus que será eletrificado ou não, no aterro que continuará recebendo orgânicos, na praça do bairro que ganhará ou perderá árvores maduras. O Pacto Climático continuará acompanhando o desdobramento orçamentário e publicará atualização após a votação na Câmara.
Relatos e documentos sobre o Plano ClimSP podem ser enviados para [email protected].